by me
lembro-me de ter nascido triste. depois, fui crescendo e tendo acesso a pequenas felicidades até ter experimentado, já adulta, um dia inteiro feliz.agora, com trinta e poucos anos, percebo que estar contente e estar feliz, não são a mesma coisa. percebo também a importância que dou à tristeza genuína e vou compreendendo, cada vez com mais clareza, porque é que as pessoas são tão importantes na minha vida.
as pessoas e os afectos. que são a mesma coisa.
queria ter sido bailarina como tantas outras meninas.
mas sou professora e mais não sei o quê.
gosto de ler. muito de ler. e o silêncio é fundamental na minha vida. cada vez mais.
gosto de música e consigo ler e ouvir música ao mesmo tempo. desde que a música não tenha letra. ou bem que leio ou bem que canto. ao mesmo tempo, consigo amar as pessoas. e cozinhar e, por exemplo, ao mesmo tempo, tirar a roupa do estendal.
não há assim muito mais coisas que consiga fazer ao mesmo tempo.
e por falar em tempo. o tempo é algo que me comove. as rugas da minha mãe comovem-me. de tão lindas que são.
o sorriso da minha mãe não seria tão terno sem as rugas à volta dos olhos.
não percebo como há operações para tirar rugas.
mas eu também não percebo imensas coisas.
as manchas castanhas pequeninas nas mãos da minha avó comovem-me.
as crianças a crescer, comovem-me.
a vida a tornar-se recordação comove-me.
é o tempo a comover-me.
os meus amigos comovem-me.
e eu até nem sou de me comover.
mas quando, na primavera, os pessegueiros começam a florir sinto uma felicidade imensa. e quando no outono a paisagem aquece eu sinto-me numa casa enorme de paredes altas vermelhas e amarelas. só minhas. a escutarem-me.
e corro. corro nos campos, como nos corredores. mas corro como as borboletas.
no verão gosto de ir à praia. desde que deixei de fazer castelos com convicção, deixei também de gostar de areia. mas não vivo sem o mar aos pés.
gosto do mar da minha esplanada e gosto do fundo do mar.
acredito em sereias. interrogo-me vezes sem conta:
as estrelas do mar sonham o mesmo que as estrelas do céu?
às vezes penso que não. são universos diferentes.
a matéria onírica não é a mesma. são signos diferentes.
outras vezes penso que sim. exactamente por serem universos diferentes.
gosto muito de viajar. e em todas as viagens olho para o céu. e penso sempre a mesma coisa banal. não fosse babel as fronteiras não fariam sentido.
e não fazem.
e sempre que posso vou ao fundo do mar.
e penso sempre a mesma coisa sem sentido: gostava de viver aqui.
posso parecer, mas não sou distraída.
não há sonho nenhum que me passe ao lado.
quando for sénior gostava de ter uma boa colecção de dias inteiros felizes.
e não ter alzheimer para me poder recordar de tudo. e de todos.
e ter netos para lhes poder contar histórias verdadeiras e inventadas.
quero morrer muito velha. muito sábia. e feliz.
e com rugas serenas à volta dos olhos.
posso parecer, mas não sou distraída.
não há sonho nenhum que me passe ao lado.
quando for sénior gostava de ter uma boa colecção de dias inteiros felizes.
e não ter alzheimer para me poder recordar de tudo. e de todos.
e ter netos para lhes poder contar histórias verdadeiras e inventadas.
quero morrer muito velha. muito sábia. e feliz.
e com rugas serenas à volta dos olhos.

Bonito! ;)
ResponderEliminarque lindo prima! Concordo contigo em muita coisa principalmente na questão das rugas. Adoro as rugas únicas e lindas da minha mamy :)
ResponderEliminarbichinho,
ResponderEliminaradorei as palavras. é bonita por fora e linda por dentro.
e... também gosto muito do sereno envelhecer e das rugas e do 'cair da neve' nos cabelos...
um sorriso :)
mariam
nota:comento pouco, mas voltarei aqui com muito gosto :)
obrigada mariam...excelente descoberta a nossa! :)
ResponderEliminaradorei
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